quarta-feira, 15 de agosto de 2012

27. "ONDE SE GANHA O PÃO...

... não se come a carne”. Já dizia o velho ditado. Mas vai dizer isso pra glande? Essa cabeça nada pensante que só se mete (ui!) em encrenca e confusão.
Giovanna saiu de licença maternidade. Seis meses mais as férias. Nosso chefe me promoveu, temporariamente, a encarregado, e trouxe Renato do almoxarifado. Ele era estudante de publicidade e iria ocupar, pelo menos naqueles sete meses, minha vaga.
Renato tinha conhecimento zero e vontade dez de aprender. Durante o primeiro mês, procurei ensinar tudo a ele. Meu chefe até ficou surpreso com meus conhecimentos. Renato tornou-se minha sombra naquele escritório.
E era um rapaz muito, muuuuuuuuito bonito. Gostoso. Moreno, cerca de um metro e oitenta, bunda bem redonda sempre dentro da calça jeans, um estilo bem normal e simples de vestir-se e agir. Reservado em sua vida pessoal, às vezes atendia ao telefone. Falava com o “mor”. Com o tempo, percebi que deixou de referir-se a ela por esse apelido carinhoso.
No terceiro mês da licença, o chefe me chama para a bomba: Giovanna decidiu não voltar para a empresa. Pedira demissão. Ele, então, ofereceu o cargo de encarregado a mim (aceitei) e o de assistente a Renato.
Passamos a almoçar juntos com maior freqüência, e Renato, sempre reservado em sua vida, um dia resolveu abrir o jogo. Havia rompido o namoro. Estava meio pra baixo, mas aliviado. Sentia-se pressionado a formalizar a união, ao mesmo tempo em que sua vida social se resumia a cinema, um ou outro restaurante, uma ou outra lanchonete. Amigos, sumiram. Apesar de ter de começar do zero, e também da tristeza e do vazio, tinha disposição de sobra para isso.
Não vou negar que até esse dia, achava que o tal “mor” de Renato era, na verdade, um homem. E também não nego que sentia um puta tesão por ele. Quantas punhetas tinha dedicado a ele em meus banhos em casa? Mas, enfim, era hétero. E como tal, deveria continuar. Gay só investe num hétero se houver, ainda que microscópica, uma chance. E eu não a enxergava nem com o mais potente microscópio.
Num fim de semana convidei-o a sair comigo. Ele ficou radiante, aceitou antes que eu terminasse o convite. Começamos por um bar e esticamos a uma balada. Lá pelas tantas, eu estava trocando olhares com um cara e nos encontramos no banheiro. Quando voltei para a pista, Renato estava de cara fechada.
O clima no trabalho estava pesado. Renato, que era minha sombra, ficava distante. Numa tarde em que o chefe tinha ido a uma reunião fora, puxei assunto. Eis que fui surpreendido pela bomba: Renato tinha notado minha paquera com o rapaz na boate. Não havia ficado chateado com a descoberta, mas triste por que ele é quem queria ser paquerado por mim. Ali, naquele escritório, naquela tarde, Renato dava seu primeiro beijo na boca de um homem.
Nosso namoro, ainda que secreto na agência, evoluiu, o tempo passou. Renato formou-se no final do ano seguinte, e a descoberta de ser gay talvez provocasse nele o desejo de viver novas e muitas experiências. Eu já tinha passado por aquilo. Fui capaz de entender, mas não evitar o sofrimento pelo fim do nosso namoro. Renato deixou a cidade e veio morar em São Paulo.
Dois anos depois, percebi que eu mesmo tinha ficado maior que aquela agência e aquela cidade. Consegui um emprego no Ibope em São Paulo. Sou diretor de pesquisas e trabalho na área de relacionamento com empresas.
Encontrei Renato em algumas baladas. Está bem diferente. Roupas e cabelos num estilo mais fashion, sempre acompanhado de muitos amigos e muita bebida. Descobri também que é um diretor de arte e design de uma das agências de propaganda que estão em minha carteira de clientes. Em minhas visitas a ela, ele finge não me ver, mas percebo que o canto de seu olhar me procura. Não sei se constrangido pelo fim do namoro ou se um desejo de um revival.
Quanto a mim, “águas passadas não movem moinhos” nem matam a sede. E eu tenho sede. Sede de viver, sede de seguir em frente. Sede de ser feliz. Sede que vou saciar bebendo outras águas. Não as águas do tempo de Renato. Por ele, a última água foi a das lágrimas. A vida segue. E a minha, certamente, tem um longo caminho de sede, de águas... E também de lágrimas, por que não?

4 comentários:

Edu ardo disse...

Por que não?

ADOREI o relato. Cê escreve bem pra carai. E "vive" bem, também!

Ro Fers disse...

Puxa que história picante, envolvente e bacana, pena que tudo tem um fim, e nem tudo é duradouro...
As vezes "vale a pena ver de novo" quem sabe role algo de novo, nem que seja por uma noite...
Abraços

railer disse...

o ditado 'onde se ganha o pão...' é pra ser seguido, mesmo a cabeça não pensando assim. tem que ser forte.

comigo foi assim, até que rolou uma festinha de despedida de mudança de emprego. daí... rs

Marcos Campos disse...

É, a história de que os vampiros não podem caçar perto de casa ...
É a vida !!