quinta-feira, 2 de agosto de 2012

26. VOU DE TÁXI

Aquele era meu primeiro sábado pós fim do namoro. Eu ainda carregava alguns resquícios de tristeza e aquela noite queria, pelo menos, me sentir desejado. Escolhi ir para uma das baladas mais concorridas de São Paulo. E resolvi que iria beber. Ou seja, não fui de carro.
Ainda bem que algum resquício de bom senso foi comigo pra noite. O som, eletrônico, me dava dor de cabeça. Aquele monte de homens sem camisa (ainda que fizesse uns 10 graus na madrugada), desfilando suas tatuagens e músculos de muito ferro na academia e “docinhos” correndo soltos, me fez querer voltar pra casa. Eram pouco antes de 2 da manhã. Decididamente a caipirinha que eu tomava não iria cair bem se eu continuasse ali.
Paguei, saí e fui à pé até a Avenida Pompéia, cerca de 500 metros dali. Aguardei o primeiro táxi que passasse, o que não demorou muito.
Indiquei onde queria ir para aquele belo moreno de uns 30 e poucos anos. Logo de cara ele perguntou se a balada não estava legal. Falei que aquele não era meu ambiente, eu curtia uma coisa menos expositiva e um som mais cantante e menos psicodélico. Ele também falou um pouco sobre sua vida.
Gustavo tinha 34 anos, solteiro, morava com a mãe na zona norte. Estava juntando um dinheiro para terminar a casa e sair do aluguel. Tinha comprado e quitado o táxi, mas não tinha ponto. Rodava à noite aos finais de semana para ganhar mais dinheiro. Estava solteiro e sua próxima meta era voltar a trabalhar durante o dia e encontrar alguém que preenchesse seu coração.
Reparei que ao chegar à Avenida Doutor Arnaldo, ele imprimiu uma menor velocidade à Meriva. Minha curiosidade permitiu questionar e ele disse que estava se sentindo à vontade de conversar comigo e queria prolongar aquela conversa nem que fosse por alguns minutos somente. Enrubesci com aquele inesperado comentário.
Na Avenida Paulista, notei que ele tomou os últimos goles de água da garrafa que trazia enquanto, ao mudar de marcha (parecia até clichê de filme barato), seus dedos esbarraram em minha calça e eu nem a tirei da posição. A partir daí, entre a segunda e a terceira marcha, sentia seus dedos me tocando.
Estacionou o táxi em frente de meu prédio por volta de 2 da manhã. A corrida do bairro da Lapa até os Jardins não passou de 45 reais (e eu achava que seria bem mais que isso). Entreguei uma nota de 50. Aí ofereci a ele reabastecer sua garrafa de água. E não é que ele aceitou? Convidei-o a subir ao meu apartamento.
Aquela noite Gustavo não deve ter faturado tanto. Pois foi embora de meu apartamento eram sete horas da manhã. E antes que eu imaginasse, ele passou a trabalhar durante o dia somente. E eu passei a ajudar na compra de móveis novos para a casa nova de Gustavo que ficou pronta depois de três meses.
Voltei àquela balada apenas uma vez. Com Gustavo. E no meu carro. Assim como eu, não gostou do som que rola lá. No nosso aniversário de um ano de namoro, em duas semanas, comemoraremos numa das baladas que eu gosto de ir e que ele também gostou de conhecer.

7 comentários:

Latinha disse...

You´re back!

Adorei o post, muito bacana...
Impossível "não suspirar!".

Adoro essas surpresas da vida...

Abração!

Freddie Butterman disse...

Realmente bacana... Ainda mais saber que a relação foi tão longe... Confesso que eu não teria iniciativa de convidá-lo para subir - talvez seja tímido demais - mas admiro em que é ousado assim...

Abraços!

Paulo R. L. disse...

Bacana a sua história. Acho que, hoje em dia, fazem falta essas pequenas histórias de (boas) surpresas do cotidiano.

Como o Latinha disse: "Impossível não suspirar!"

Alex M. disse...

Deliciosa sua história!

Edu ardo disse...

You're back! [2]

E eu quase que achei que éramos vizinhos (Lapa) mas foi justamente o contrário.

Parabéns procê e pro Gustavo!

Fred disse...

You're back! [3]

E que conste: achei tudo mutcho digno! Bacana, man! Hugz e welcome back!

railer disse...

you're back! [4]

legal o texto.
é verídico?

abraços!