domingo, 3 de abril de 2011

ep. 04 - A CERVEJA E O CIGARRO

Numa semana onde o falastrão Jair Bolsonaro ganhou, de novo, as páginas de jornais, redes sociais, e virou assunto nos quatro cantos, o que mais me assusta é saber que o preconceito para com homossexuais não parte somente de quem não tem essa condição.
Infelizmente os gays são também preconceituosos e, muitas vezes, agem de forma a humilhar, retaliar e, por que não?, anular outro gay.
Em sites de relacionamento, corpos trabalhados em anos de academia de ginástica (e bomba, em muitos casos) fazem o diferencial e sublinham que a busca deve ser entre iguais.
Cidades grandes, como São Paulo, amizades são construídas entre próximos. Existem, e são muitos, mas sempre haverá um distanciamento entre um homem que more na Penha e outro que more na Lapa. E não apenas distanciamento geográfico.
Fora quando um piercing, uma tatuagem, a música que ouve, a balada que frequenta, o jeito que fala, uma etiqueta de grife famosa e cara na roupa, a marca/modelo/ano do carro que dirige (isso se tiver carro) podem significar a aceitação ou rejeição de uma pessoa por um grupo. Caráter e dignidade ficaram para segundo plano. São bonitos na retórica: todo mundo diz valorizá-los. No entanto, suas atitudes seguem em caminhos opostos.
Isso em pleno século XXI.
E foi numa noite de sábado, do quarto mês, do primeiro ano, da segunda década do século XXI que essa cena aconteceu:
Dois homens se olham, se paqueram, mas não se aproximam. Tempos depois, outro encontro, outra troca de olhares, sem aproximação. Mais tarde, bem mais tarde, um deles fuma um cigarro no terraço quando o outro, que estava com seus amigos, alterado pelas várias garrafas de cerveja consumidas, aproxima-se e num tom acima do normal, para ser ouvido, diz ao que fumava:
- Você é lindo, tem uma boca gostosa que eu adoraria beijar. Pena que você fuma. Eu odeeeeeeeeeeeio cigarros.
Como se ajudado pelos espíritos protetores, o que fumava (e só bebido refrigerante e água) responde:
- Eu não beijaria você por duas razões. A primeira: você não faz meu tipo. É feio de doer. E a segunda: Eu detesto bafo de cerveja.
As várias pessoas que estavam no local ficaram em silêncio. Algumas espantadas, outras cutucando os amigos e apontando na direção dos dois.
Mas todas, certamente, divertindo-se com tamanha demonstração dupla de idiotice.
O preconceito está por aí. Embaixo de tampinhas de garrafas de cerveja. Voando na fumaça de um cigarro.

14 comentários:

Mariana disse...

Preconceito é intrínseco ao humano, eu acho. Está em muitos lugares. Gays são humanos. Sofrem e praticam o preconceito.

Pertencer ao meio não exclui nenhuma 'humanidade'. Nenhuma.

bjs

Rodrigo disse...

pré conceito é phoda, e nem é das boas

Carlos Roberto disse...

O Preconceito vai existir sempre, pois mesmo aquele que diz não ter preconceito exerce uma função de preconceito com o preconceito. Ser gay é praticamente estabelecer uma condição de vítima e ao mesmo tempo de opressor, pois, como você mesmo citou, um gay tem preconceito contra outro gay. Fato que em tese seria algo inadmissível de se ocorrer já que ambos lutam pela mesma causa, ou seja, a sua aceitação no mundo. Sem contar do preconceito as avessas, pois muitos gays tem preconceito contra heteros... Para encurtar esse assunto que pode render inúmeras conversas... Gay, hetero, bi, fumante, amante de bebida, seja lá o que for. São rótulos e nada mais do que isso. E esses rótulos são atribuídos a preconceitos que nada mais são do que uma não aceitação de alguma ação/atitude; explicando melhor, o gay não aceita o que o outro é por não terem o mesmo gosto e para muitos só fica a imagem de um gay odiando o outro. Vamos parar e pensar... São dois seres humanos, não?
O engraçado da história é o fato do homem contar para o outro que odeia cigarro, é a coisa mais estranha e doida que poderia ocorrer. Mas estranho ainda é os dois se olharem e um dizer que não ficaria porque o outro é feio... O olhar não foi de desejo? E a fala não foi uma desculpa para a suposta humilhação do outro?

Melissa disse...

Não raro, tanto em meios heteros, como gls vemso esses tipos de comportamento. Ou piores...
gostei muito do blog!
Obrigada pela visita lá no SAV e volte sempre!

Junior Healy disse...

O meio gay tem preconceito contra si próprio, isso é fato.
Como já disseram antes o preconceito sempre existirá.

Fred disse...

Certíssimo!
Eu bebo e fumo.
E dane-se todo mundo.
É que sempre é mais fácil detectar o preconceito alheio do que aqueles que trazemos arraigados dentro de nós!
Hugz!

Claudia Alves disse...

Preconceito é uma forma ignorante de pensar e muitas vezes, de agir.
Valores essenciais como o caráter, a dignidade ficam em segundo plano mesmo, sem dó nem piedade. O que se vê superficialmente é o que se tem para julgar. Não gosto da intolerância que ocorre hoje. Um ato tão bonito é o de aceitar o outro como ele é, e as escolhas que ele fez pra sua vida. infelizmente, nem todos pensam assim.
http://www.claudiaalvesinteriores.blogspot.com/

Junnior disse...

Olá. Passei para agradecer o comentário e, após ter lido esta postagem, dizer que o preconceito aparece em diversas situações pelas quais não nos damos conta, como vc expôs.
O Bolsonaro pode ser - e deve ser - o que as pessoas comentam, mas graças à ausência de bom senso e à imunidade parlamentar dele temos a chance de refletir e de nos (auto) conscientizarmos dos nossos preconceitos.
Abraços.
P.s: adorei brincar com o seu cachorro.

Titchya Alda disse...

Euzer é a primeira vez que visito seu blog e agradeço de coração sua visita lá no Abapha, e que bom que você gostou do Boatchy Abapha 2. Tem o Boatchy Abapha 1 também...

Eu já vi cada coisa acontecer, que, menino, você não acredita! Em sauna gay mesmo, quantas vezes eu vi pessoas sendo rejeitadas por serem gordinhas, ou por fumarem ou por beberem, até pela cor da toalha! Eu acho que a cena mais impressionante de preconceito que eu presenciei foi quando eu e um amigo estávamos num barzinho e o garçom nos ignorava, passando várias vezes pela nossa mesa. Numa dessa vezes, o meu amigo puxou-o pelo braço e disse: "Ei cara, você não tá vendo a gente aqui não?" Ele disse: "Tô sim, mas é que aqui não é bar GLS..."

Beijos querido.
Alda.

E conheçam o Abapha

www.abaphaoblog.blogspot.com

Lobo disse...

Olá Euzer!

Agradecer a visita lá no Uivos, e aproveitando para conhecer seu espaço.

Eu acho sim que o Boçalnaro foi muito infeliz nas colocações dele. Também acho que existe muito preconceito de gays para com os próprios gays. Mas, neste exemplo que você citou, acho que não podemos esquecer que existem gostos pessoais a serem considerados.

Por exemplo: eu tenho problema com cigarro. Acho o cheiro insuportável. Não fico com quem fuma porque eu sou neurótico, não gosto do gosto de cinza que fica na boca da pessoa, do cheiro que impregna o cabelo, a roupa. E se existe alguma possibilidade daquilo ir pra frente, eu sei que não vou aguentar a pessoa fumando perto de mim o tempo todo, e ela não vai parar de fumar por minha causa... então sabe, reservo-me o direito de não ficar com fumantes. O que não quer dizer que não possamos bater um papo, desde que ele não bafore aquela fumaça na minha cara. É diferente de chegar dando voadora: "Você fuma, tomara que morra!". Tudo é o jeito como você fala. Respeito tem que haver acima de tudo.

Um beijo!

αnα Beαtriz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Claudia Alves disse...

Muito obrigada pelo comentário em meu blog, realmente fico muito feliz quando alguém prestigia o meu trabalho, mesmo que esta pessoa seja leiga a respeito do que eu faço, pois eu também aprendo muito com os blogs que leio. E com o seu não é diferente: um tema central bem definido e vários temas dentro deste, que me faz ver dilemas reais que sozinha eu não enxergaria. Seu blog é muito bom, sem meias palavras, expõe aquilo que tem que expor e é interessantíssimo.
Espero que continue agradando, e aceito o convite para retornar mais vezes aqui no blog. Rs
http://www.claudiaalvesinteriores.blogspot.com/

Fred disse...

Relaxa que estás ótimo... afinal se o cara deixa o snorkel e o cilindro à mostra é pq quer que a gente olhe, né? Hahahaha! Hugz!

Diego disse...

Mas qual foi o preconceito da cena que você relatou? não capturei.